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A política e o ato de amor à cidade

Como o ato de votar com consciência é uma expressão de amor ao lugar que vivemos

Pode parecer difícil amar a cidade em que vivemos. Há muitas barreiras geográficas, sociológicas e políticas que nos abrem feridas expostas e abalam nossos sentimentos em relação ao espaço urbano. Eu sempre amei a Grande Vitória, desde que eu me entendo como um ser humano. Escrevi muito sobre isso em minha coluna para o Vila Velha em Dia, inclusive. Minhas grandes experiências são nas ruas e é através delas que o meu senso de amar se aflorou ainda mais. Mas para isso, há um processo árduo em se reconhecer dentro de um espaço, repleto de pessoas diferentes. É isso que chamamos de cultura. A cultura está nas conversas, no dia-a-dia, nas trocas e em tudo o que acontece e movimenta a cidade desde seu surgimento. 

É poesia, para mim, ver uma Grande Vitória real, mesmo com seus diferentes enredamentos e complexidades. Estamos tão movidos pelos desdobramentos de uma região violenta, cruel e repleta de obscuridades, que não entendemos que tudo em uma cidade é um ato político e cabe a nós ressignificá-los, o que é muito diferente de uma romantização. Ressignificar é aprender e entender que a cidade é um ser plural e diverso, e que fazemos parte dela. É nosso compromisso contínuo de manter a esperança e fazer a diferença diante das adversidades. A Grande Vitória é absurda. E eu percebi isso nos ônibus lotados, na vizinhança, no samba, nas praças, nos prédios e casas que nos espiam, nos rostos das pessoas, no céu azul com rastro de poluição, nessas águas brilhantes e meio duvidosas e em cada esquina esquecida, que há vida em meio às dores e cicatrizes expostas, que doem mais do que um coração partido, mas é a partir delas, que conhecemos o amor. E o maior ato de amor é fazer as pazes todos os dias com a cidade, entendê-la, se fazer presente, e a partir daí, colaborar com tomadas de ações que iniciem a diferença. 

No artigo “Do amor à cidade”, Jorge Ricca Júnior aponta que, do mesmo lugar que nasce a vontade de construir as cidades mais belas, pode surgir a vontade de destruí-las. Precisamos pensar em um amor genuíno nas urnas, e não aquele que se refere a si próprio quando colocado em prova. A cidade sofre com a materialização dos frutos de uma gestão política e de ações de Estado, mas também é a nossa base de compromisso histórico-político contra as opressões. Pertencimento e transformação social convergem em uma batalha articulada pelo direito à cidade. E é a partir dessa mudança de perspectiva de onde vivemos e reconhecimento dos aspectos negligenciados do lugar onde vivemos, que percebe-se o voto e a busca por direitos como articulação para mudanças significativas em direção a uma sociedade mais equitativa e inclusiva. Mas resolver isso, é preciso imediatamente entender como a cidade funciona, isso serve para quem a vive e para quem governa. 

As discussões sobre o espaço urbano devem ser melhor disseminadas, como um ato de amor e pertencimento. Não basta somente dizer que ama e fechar os olhos para a cidade acontecendo. Não basta reclamar do que acontece, sem ao menos agir de alguma forma. E muito menos, não basta agir e não fazer isso corretamente. Neste ano eleitoral, é necessário pensar além de si mesmos, imaginar um “nós”, um espaço plural que merece ser ouvido e respeitado. É pensar nas vivências que nos transpassam diariamente, o que nos faz amar e odiar, é pensar numa cidade cheia de contrariedades que também é o nosso lar. É votar conscientemente em pessoas que percebem o mesmo. 

Penso muito nas palavras da jornalista carioca Julia Pitaluga, que nos faz pensar no espaço urbano bem além do Rio de Janeiro. “Somos onde vivemos, o que escolhemos viver, somos uma cidade inteira e a cidade intervém demais em quem somos, ela é nós, mas nós somos ela também. Somos as suas contradições, suas dores, suas perversidades, suas belezas, suas desigualdades e suas lutas. Assim como as cidades, nossos corpos são constantes reorganizações de espaços. Cada pessoa é uma cidade, e cada pessoa carrega cidades.” 

Nada pode resumir o valor de uma cidade, nem a beleza dela, nem dizer o que ela é, e tudo isso faz parte de uma só cidade, que carrega isso tudo e carrega a gente.

Louize Lima
Nascida em Vitória e criada em Vila Velha, Louize Lima é jornalista e cronista, apaixonada pela Grande Vitória.
@l8uize


As opiniões expressas neste texto são de exclusiva responsabilidade do autor convidado e não refletem, necessariamente, a visão ou posição editorial de O Parcial. Cada autor convidado é responsável por suas declarações, argumentos e conteúdos, reafirmando nosso compromisso com a pluralidade de ideias e o debate saudável e respeitoso.

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