Siga também no:

Textos Convidados

Minha segunda vez

Quando recebi o convite do querido Vitor Magnoni para ser colunista de “O Parcial”, logo pensei no desafio de produzir textos regularmente. Sei que vou ter de suar a cachola para conseguir elaborar algo que valha a pena ser lido. 

Ligo o computador e decido enfrentar a temida página em branco do Word. 

– Qual será o tema que vou escrever desta vez? 

Opa, 2024 é ano olímpico, pode ser um bom assunto. Deixa pra lá. Não tenho competência para escrever sobre esse evento quadrianual. 

– Ajuda, cabeça, ajuda! 

E se eu abordar o calorão que tem feito em todo o Brasil? Todo mundo tem sentido os efeitos baforéticos e calorênicos das mudanças climáticas, não é verdade? Huum, sei não. Desculpa o trocadilho, mas não me parece um tema quente para que eu o explore devidamente.

– Bora pensar… bora pensar… 

O que posso escrever nessa minha segunda vez em “O Parcial”? Você que está lendo este texto, use seus poderes mentalizadores e sugira possibilidades. 

– Vai, nunca te pedi nada. 

Hum, vamos lá. Já que será a segunda vez que publicarei um texto por aqui, que tal se o tema for justamente “A segunda vez”?

Você já parou para pensar que a tal “a primeira vez” tem destaque em excesso? Você lembra da primeira vez que andou de bicicleta? Ou então da primeira vez que se apaixonou perdidamente? Como esquecer a primeira vez que assistiu a um filme no cinema? E a primeira vez que viu um jogo de futebol no estádio? 

Sem contar aquela publicidade de lingerie que diz que “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”. Pois é. Acho que tenho motivos mais que suficientes para dar uma moral para a negligenciada e refugada segunda vez de todos nós. 

Acompanhe meu raciocínio. A primeira vez nem sempre é sinônimo de sucesso e de boas lembranças, não é mesmo? Eu não sei você aí que está acompanhando este artigo, mas já me aconteceu inúmeras vezes de sentir vergonha daquilo que produzi no passado. No momento parecia até incrível, mas foi só o tempo passar para perceber que aquela ideia era bem bola murcha. Se eu tivesse o olhar de hoje, certamente, refinaria a versão inicial. 

Por isso, retomo a minha bandeira de valorização da segunda vez. Vou exemplificar a partir de uma situação que muitos de nós já passamos: entrevista de emprego. Geralmente, na primeira entrevista, costumamos nos lembrar da ansiedade, da preocupação em vestir um look adequado e em proferir falas elaboradíssimas diante das perguntas do empregador. 

– Me diga, qual o seu maior defeito?

– Ah, então, sabe, meu maior defeito é ser perfeccionista.

Independentemente do resultado do processo seletivo, quando a gente retorna para casa começa a remoer os vacilos cometidos. Isso é culpa da famigerada importância que a primeira vez tem em nossa vida. 

– É hora de darmos um basta!

A verdade nua e crua é que a primeira vez é só um ensaio para que venha a retumbante e magnífica segunda vez. A primeira vez pode até funcionar como um esboço. Mas logo em seguida virá a segunda vez, essa sim, uma ação aperfeiçoada, fruto de um aprendizado ocasionado pelo amadorismo da primeira vez. Está insatisfeito com a sua primeira ideia? Faça como Raul Seixas e “tente outra vez”.

Quer outro exemplo? Não é raro encontrarmos filmes que a continuação ou remake foi superior à versão original. Exterminador do Futuro 2 (1991), Rocky 2 (1979), Planeta dos Macacos (2014), Esqueceram de mim 2 (1991) e Guerra nas Estrelas: o império contra-ataca (1980) são algumas amostras que nos ensinam o quanto uma primeira vez pode gerar produtos superiores na sequência. 

Não te convenci ainda? Respire fundo. Caso nos conscientizemos de que a primeira vez é tão somente uma etapa com status de rascunho, a segunda vez passará a ser ela, a primeira vez! Tcharan! Entendeu? Eliminemos a forma como encaramos a inacabada primeira vez, para que a segunda vez se configure, aí sim, na extraordinária primeira vez. 

Bom, acho que consegui finalizar este artigo desbravando as minúcias e as sutilezas que a segunda vez oferece em nossa vida. Mas, caso não tenha conseguido persuadi-lo adequadamente (o que é bem possível), humildemente aceitarei a derrota e passarei a pensar em um novo tema para a edição seguinte. Jogo que segue. De qualquer forma, foi a primeira vez que tentei escrever sobre a segunda vez. E acho que esse tema não merece uma segunda chance.

Victor Mazzei
Redator, Professor, Mestre, Doutor e Autor.
@victorrmazzei


As opiniões expressas neste texto são de exclusiva responsabilidade do autor convidado e não refletem, necessariamente, a visão ou posição editorial de O Parcial. Cada autor convidado é responsável por suas declarações, argumentos e conteúdos, reafirmando nosso compromisso com a pluralidade de ideias e o debate saudável e respeitoso.

Continue Reading
Publicidade
27 comentários

27 Comments

  1. Avatar

    Matheus Majone

    1 de março de 2024 at 14:02

    Adorei o encerramento 😂 As vezes as primeiras vezes não merecem um remake

    • Avatar

      Victor Mazzei

      1 de março de 2024 at 14:08

      obrigado, Matheus! Tão importante como começar bem um texto é fechar de maneira digna kkkk

  2. Avatar

    Raquel Vieira Monteiro

    1 de março de 2024 at 14:04

    Perfeito. É sempre bom saber que podemos ter segunda vez e que tudo pode sempre ser melhor!

    • Avatar

      Victor Mazzei

      1 de março de 2024 at 14:08

      isso aí. Obrigado pelos comentários e todo o carinho, Raquel.

  3. Avatar

    Itamara

    1 de março de 2024 at 14:14

    Sensacional, Mazzei!
    amo ler os seus textos.

    • Avatar

      Victor Mazzei

      1 de março de 2024 at 14:16

      obrigado, pelo carinho, Itamara. Vc sempre tão gentil comigo.

  4. Avatar

    Fernando Caliari

    1 de março de 2024 at 14:16

    fui praticar esse exercício e perdi a conta de quantas vezes achei o texto ótimo. na próxima te aviso. =)

  5. Avatar

    Victor Mazzei

    1 de março de 2024 at 14:30

    kkkk valeu, queridão. Saudades.

  6. Avatar

    Suzanny Alcântara

    1 de março de 2024 at 14:42

    Amei o texto! A partir de hoje vou encarar as primeiras vezes como rascunho, para assim fazer bem melhor nas próximas tentativas

    • Avatar

      Victor Mazzei

      1 de março de 2024 at 14:54

      isso aí, “SuzannA”. Vc é fera e vai brilhar muito. Na primeira e em todas as vezes que tentar. abraços

  7. Avatar

    Brenda Moura

    1 de março de 2024 at 15:17

    Arrasa d mais!!

  8. Avatar

    Wilson Peçanha Igreja Campos

    1 de março de 2024 at 18:59

    Que tema sensacional, Mazzei. Adorei, achei disruptivo 😉

    • Avatar

      Victor Mazzei

      1 de março de 2024 at 20:44

      Disrupção é serventia da casa. Obrigado pelo comentário, meu caro.

  9. Avatar

    Marcela Bocayuva

    1 de março de 2024 at 20:13

    Adorei, cheio de bom humor e verdades!

  10. Avatar

    Luiza Medina

    1 de março de 2024 at 21:03

    Mazzei, querido!

    Juro para você que pensei esses dias em te perguntar qdo você publicaria de novo por aqui. Adoro ler os seus textos. Super leves e criativos que nos faz refletir e dar boas risadas!

    • Avatar

      Victor Mazzei

      3 de março de 2024 at 07:34

      obrigado, Luiza, pela sua gentileza. Em breve teremos mais. Obrigado.

  11. Avatar

    Maria Helena

    2 de março de 2024 at 09:26

    Vitor, achei muito bom seu texto , até porque a primeira vez as vezes , é muito ruim. Que bom que teremos você regularmente alegrando nossos dias.

    • Avatar

      Victor Mazzei

      3 de março de 2024 at 07:34

      obrigado, Luiza, pela sua gentileza. Em breve teremos mais. Obrigado.

  12. Avatar

    Drielly Schmor dos Santos

    2 de março de 2024 at 09:52

    Sensacional, professor! Seu texto reflete muito quem você é, e quem já conviveu contigo pega várias referências – como a propaganda do primeiro Valisere. É o poderoso repertório cultural que você tem que te fará a segunda vez, a terceira vez, a quarta vez.., ser tão genial como a primeira. Abraço!

    • Avatar

      Victor Mazzei

      3 de março de 2024 at 08:02

      que comentário maravilhoso, Drielly. Obrigado por suas palavras.

  13. Avatar

    Celeste Fabris

    2 de março de 2024 at 10:55

    A falta de arborização na cidade de Vitória, tem colaborado para ser a temperatura mais alta do Brasil. Nada justifica a falta de plantios bem elaborados. É comprovado que as ruas da cidade precisam de árvores. As praças são um abuso de quente. Éra para que antes de colocar os brinquedos, ser plantadas árvores que dão sombra. Admiro imensamente o trabalho do O Parcial, comprometido com a oposição a esses prefeitura que mais parece uma eterna comemoração do supérfluo. A educação abandonada…

  14. Avatar

    Nilza Leal Tausz

    2 de março de 2024 at 19:48

    Oi Victor,adorei seu texto,mt criativo como sempre,o anos passam, a idade aumenta, mas mesmo assim aparecem situações novas,vai ser bom encaralas como rascunho.Bjs aguardando outros textos.

    • Avatar

      Victor Mazzei

      3 de março de 2024 at 07:35

      obrigado, tia! É isso aí.

      • Avatar

        Almir Bressan Junior

        3 de março de 2024 at 18:40

        Victor!
        Sua capacidade criativa, associada ao seu humor inteligente e sutil, tornam seus textos atraentes e divertidos! Parabéns pela “segunda vez”! Espero os próximos!

        • Avatar

          Victor Mazzei

          4 de março de 2024 at 11:33

          obrigado pela gentileza, Almir.
          Haverá uma “terceira vez”.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais em Textos Convidados

Mais lidas

Textos Convidados

Sociedade do Umbiguinho

Topo