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Textos Convidados

Texto leva eu

A escrita funciona como uma viagem para um destino que não está previamente definido. O caminho a percorrer passa por uma estrada com pouca sinalização, de forma que cada curva ou nova reta se apresentam como desafios para repensar o itinerário. Não há como saber ao certo quanto tempo vai durar, tampouco quanto esforço será demandado. Ela pode variar entre um passeio sem muita graça ou uma epopeia épica, podendo, inclusive, ser apagada caso o objetivo final não seja alcançado.

Você pode querer negar ao chamado, como todo início de jornada heroica, sentado no sofá, com o controle na mão, pipoca no colo e aquele pijamão com ventilação na sobrecoxa. Mas não vamos deixar que você desista. Precisamos que você aceite o convite para a escrita criativa, produtiva, artesã, criteriosa, prazerosa, anti-paradigmática, crítica, reflexiva, carregada de beleza estética, cultura e vontade. A escrita sem vontade é como a bula do remédio, carregada de função e desprovida de emoção.

Não importa a natureza do texto, seja ele uma crônica, reportagem, blog post, poesia, copywriting, jurídico ou científico. Pode ser a letra de uma música, uma carta de amor, o roteiro de um filme ou um pedido de demissão. Quem produz texto sabe que terá de lidar com a assustadora página em editores de texto, como o Word, ou à moda antiga, nos cadernos com espiral. É ali, naqueles espaços convidativos e desafiadores, que a magia da escrita se desenvolve. Os espaços em branco são como palcos de teatro cujas histórias são ensaiadas no próprio ato da escrita.

Para além da burocracia técnica, que, por sinal, é necessária na produção textual, muitos roteiristas podem acabar ignorando o fator mais importante: a emoção. Textos não são as mobílias de uma casa, embora até mesmo a decoração de um ambiente seja capaz de comunicar tanto a personalidade de quem habita. Textos são feitos de estrutura e emoção. Para os redatores esses tópicos praticamente se entrelaçam por conta própria na mente de quem cria. Por mais que façamos uma organização hierárquica sobre os elementos que devem constar naquele material, é no ato da escrita que vamos tecendo aquilo que passeia entre a ordem racional, como os protocolos da escrita, concordância e pontuação, com os elementos lúdicos, sensoriais e criativos que dão o toque originalmente emocional à produção.

O estilo de cada autor vai ganhando forma e força à medida que pratica a escrita. Trata-se de uma técnica que amadurece com a prática. É preciso aprender a aprender, enquanto se escreve. Não há escrita sem vida. E a vida circula de forma endógena, na ludicidade dos filmes, livros, posts e músicas, mas também nas experiências humanas com a natureza. Não há escrita sem experiência.

Todo texto traz consigo os traços do autor. Algumas estruturas passam a ser reconhecidas como uma assinatura de quem as escreve, tal qual um bordão ou um cacoete, só que escrito. É como viajar para um destino que vamos com frequência e, mesmo assim, fazer uma parada para comprar aquele pão com linguiça no mesmo estabelecimento de sempre. Faz parte do show.

Mesmo nas viagens aparentemente mais curtas podem surgir contingências capazes de transformar simples passeios em jornadas atribuladas, como as mostradas nas provações de Dante. É possível que tudo transcorra sem maiores problemas, terminando bem antes do previsto, a ponto do viajante nem ter percebido o tempo passar. Com a produção textual é semelhante. Trabalhamos com estimativas, mas somente na hora H é possível experienciar o verdadeiro ritmo do texto. 

O redator, escritor, poeta, roteirista ou burocrata, seja quem for aquele que detém a caneta ou o teclado, pode estar com todos os tópicos estruturados e com o fio condutor do texto já definido, mas no momento de materializar no papel ou no editor de texto, muitas variáveis podem interferir. Pode ser um novo insight que surge a ponto de levar o enredo para outros rumos. Talvez uma luz de insegurança que indica a fragilidade da proposta inicial do texto. Ou até mesmo um súbito e inesperado sentimento de que ele não é tão incrível como aquele magnífico e genial roteiro que repousava como um rascunho na cabeça. 

Concordamos que um texto necessita de organização. Mas, em certos momentos, ele segue uma dinâmica própria de produção e de maturação. Quando nada parece funcionar, é importante deixar o samba fluir. Pode ser libertador cantar a plenos pulmões, como um mantra: “deixa o texto me levar, texto leva eu…”

Em tempos de Chat GPT e I.A. muitos podem se sentir tentados em flertar com as possibilidades que as tecnologias digitais nos oportunizam. Tecnologias podem ser remédios e venenos, dependendo dos usos. Porém, se há algo sedutor na produção artesanal dos textos é a possibilidade de poder contemplar a mitologia dos sopros autorais, a aura que cerca o pensamento criativo de um humano. Textos não são transcendentes, como disse o pai da linguística, Ferdinand Saussure. Eles não falam sobre a vida, não estão fora da vida. Textos são imanentes. Isso quer dizer que eles são a realidade, constroem o real e são repletos de vida. 

Textos escritos por humanos são como uma viagem: precisam de um cuidado minucioso para que possamos aproveitar ao máximo as memórias que eles deixam na gente e, principalmente, no leitor. Parafraseando DiCaprio, além do destino e do percurso, também importam as pessoas que viajam conosco. Se você nos acompanhou até aqui, como um colega de viagem, talvez já esteja preparado para comentar e até mesmo embarcar em sua jornada pelo texto. A propósito, já definiu qual é o próximo destino da sua escrita?

Autores:

Cláudio Rabelo
Professor da Ufes e autor de publicidade, estratégia e temas contemporâneos.
@claudiorabelo1

Victor Mazzei
Redator, Professor, Mestre, Doutor e Autor.
@victorrmazzei


As opiniões expressas neste texto são de exclusiva responsabilidade do autor convidado e não refletem, necessariamente, a visão ou posição editorial de O Parcial. Cada autor convidado é responsável por suas declarações, argumentos e conteúdos, reafirmando nosso compromisso com a pluralidade de ideias e o debate saudável e respeitoso.

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2 comentários

2 Comments

  1. Avatar

    Bruna Rocha

    27 de março de 2024 at 17:36

    Ótima reflexão!

  2. Avatar

    Heloisa Helou Doca

    29 de março de 2024 at 14:50

    Que texto perfeito! Parabéns!

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